terça-feira, 26 de outubro de 2010

e agora josé?


Ontem, dia 25 de outubro de 2010, no período da noite, estava na faculdade de pedagogia, folheando meu livro de 'leitura e produção de texto' de repente vejo o poema 'e agora José de Carlos Drummond de Andrade' então me recordei da primeira vez que o vi na oitava série (2005), na aula de português da professora (Nilma), recordo-me que quando vi e li pela primeira vez, achei o poema engraçado e de certa forma tolo sem sentido/nexo (sim, estúpida ao extremo); inclusive uso no cotidiano a frase ' e agora José? ', porém ontem fiquei em êxtase, tive a sensibilidade, percepção e oportunidade de analisar/interpreta-lo melhor. Percebi quão maravilhosa e incrível é a mensagem que o mesmo trás consigo. Admito, isso não é a descoberta mais sensacional, extraordinária, porém de maneira inexplicável o mesmo me chocou de uma maneira positiva, ao meu ver foi interessante esse fato ter acontecido, o julgo valioso. Por isso quero que vocês tenham a oportunidade de interpreta-lo, se é que já não tenham o feito.

Nunca esquecer: como é bom ver as coisas por outro ângulo. 


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !

José, pra onde ?

Carlos Drummond de Andrade

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